O Chão é Cama
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre o tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama
No meio do caminho tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Dados biográficos
Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar?
Que ele é meio pateta
E não sabe rimar ?
Que veio de Itabira,
Terra longe e ferrosa ?
E que seu verso vira,
De vez em quando, prosa ?
Que é magro, calvo, sério
(na aparência ) e calado,
com algo de minério
não de todo britado?
Que encontrou no caminho
Uma pedra e, estacando,
Muito riso escarninho
O foi logo cercando?
Que apesar dos pesares
Conserva o bom-humor
Caça nuvens nos ares,
Crê no bem e no amor ?
Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar
Em linguagem discreta
Que lhe saiba agradar?
Ainda que mal
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entendas,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda, assim, pergunto:
me amas?
E me queimando em teu seio,
me salvo e me dano...
... de amor.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
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Poetray
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Biografia e Poemas

(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um poucode ruga na vossa testa,
retrato.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.Em mão contrária traduziu os seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses), Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas), Marcel Proust (La Fugitive, 1925; A fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores, 1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino).Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.
Cronologia:
1902 - Nasce em Itabira do Mato Dentro, Estado de Minas Gerais; nono filho de Carlos de Paula Andrade, fazendeiro, e D. Julieta Augusta Drummond de Andrade.1910 - Inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, em Itabira (MG).1916 - Aluno interno no Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, Belo Horizonte. Conhece Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Por problemas de saúde, interrompe seus estudos no segundo ano.1917 - Toma aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira.1918 - Aluno interno no Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo; é laureado em "certames literários". Seu irmão Altivo publica, no único exemplar do jornalzinho Maio, seu poema em prosa "ONDA".1919 - Expulso do Colégio Anchieta mesmo depois de ter sido obrigado a retratar-se. Justificativa da expulsão: "insubordinação mental".1920 - Muda-se com a família para Belo Horizonte.1921 - Publica seus primeiros trabalhos na seção "Sociais" do Diário de Minas. Conhece Milton Campos, Abgar Renault, Emílio Moura, Alberto Campos, Mário Casassanta, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava, Gabriel Passos, Heitor de Sousa e João Pinheiro Filho, todos freqüentadores do Café Estrela e da Livraria Alves.1922 - Ganha 50 mil réis de prêmio pelo conto "Joaquim do Telhado" no concurso Novela Mineira. Publica trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira.1923 - Entra para a Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte.1924 - Escreve carta a Manuel Bandeira, manifestando-lhe sua admiração. Conhece Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade no Grande Hotel de Belo Horizonte. Pouco tempo depois inicia a correspondência com Mário de Andrade, que durará até poucos dias antes da morte de Mário.1925 - Casa-se com a senhorita Dolores Dutra de Morais, a primeira ou segunda mulher a trabalhar num emprego (como contadora numa fábrica de sapatos), em Belo Horizonte. Funda, junto com Emílio Moura e Gregoriano Canedo, A Revista, órgão modernista do qual saem 3 números. Conclui o curso de Farmácia mas não exerce a profissão, alegando querer "preservar a saúde dos outros".1926 - Leciona Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira. Volta para Belo Horizonte, por iniciativa de Alberto Campos, para trabalhar como redator-chefe do Diário de Minas. Heitor Villa Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema "Cantiga de Viúvo".1927 - Nasce, no dia 22 de março, mas vive apenas meia hora, seu filho Carlos Flávio.1928 - Nasce, no dia 4 de março, sua filha Maria Julieta, quem se tornará sua grande companheira ao longo da vida. Publica na Revista de Antropofagia de São Paulo, o poema "No meio do caminho", que se torna um dos maiores escândalos literários do Brasil. 39 anos depois publicará "Uma pedra no meio do caminho - Biografia de um poema", coletânea de críticas e matérias resultantes do poema ao longo dos anos. Torna-se auxiliar de redação da Revista do Ensino da Secretaria de Educação.1929 - Deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do Estado, como auxiliar de redação e pouco depois, redator, sob a direção de Abílio Machado.1930 - Publica seu primeiro livro, "Alguma Poesia", em edição de 500 exemplares paga pelo autor, sob o selo imaginário "Edições Pindorama", criado por Eduardo Frieiro. Auxiliar de Gabinete do Secretário de Interior Cristiano Machado; passa a oficial de gabinete quando seu amigo Gustavo Capanema substitui Cristiano Machado.1931 - Falece seu pai, Carlos de Paula Andrade, aos 70 anos.1933 - Redator de A Tribuna. Acompanha Gustavo Capanema quando este é nomeado Interventor Federal em Minas Gerais.1934 - Volta a ser redator dos jornais Minas Gerais, Estado de Minas e Diário da Tarde, simultaneamente. Publica "Brejo das Almas" em edição de 200 exemplares, pela cooperativa Os Amigos do Livro. Muda-se, com D. Dolores e Maria Julieta, para o Rio de Janeiro, onde passa a trabalhar como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, novo Ministro de Educação e Saúde Pública.1935 - Responde pelo expediente da Diretoria-Geral e é membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação.1937 - Colabora na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda.1940 - Publica "Sentimento do Mundo" em tiragem de 150 exemplares, distribuídos entre os amigos.1941 - Assina, sob o pseudônimo "O Observador Literário", a seção "Conversa Literária" da revista Euclides. Colabora no suplemento literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por Jorge Lacerda.1942 - A Livraria José Olympio Editora publica "Poesias". O Editor José Olympio é o primeiro a se interessar pela obra do poeta.1943 - Traduz e publica a obra Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, sob o título de "Uma gota de veneno".1944 - Publica "Confissões de Minas", por iniciativa de Álvaro Lins.1945 - Publica "A Rosa do Povo" pela José Olympio e a novela "O Gerente". Colabora no suplemento literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Deixa a chefia de gabinete de Capanema, sem nenhum atrito com este e, a convite de Luís Carlos Prestes, figura como editor do diário comunista, então fundado, Imprensa Popular, junto com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano Do Couto Ferraz e Dalcídio Jurandir. Meses depois se afasta do jornal por discordar da orientação do mesmo. É chamado por Rodrigo M.F. de Andrade para trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamento.1946 - Recebe o Prêmio pelo Conjunto de Obra, da Sociedade Felipe d'Oliveira. Sua filha Maria Julieta publica a novela "A Busca", pela José Olympio.1947 - É publicada sua tradução de "Les liaisons dangereuses", de Choderlos De Laclos, sob o título de "As relações perigosas".1948 - Publica "Poesia até agora". Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, filho. Falece Julieta Augusta Drummond de Andrade, sua mãe. Comparece ao enterro em Itabira que acontece ao mesmo tempo em que é executada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a obra "Poema de Itabira" de Heitor Villa-Lobos, composta sobre seu poema "Viagem na Família".1949 - Volta a escrever no jornal Minas Gerais. Sua filha Maria Julieta casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e passa a residir em Buenos Aires, onde desempenhará, ao longo de 34 anos, um importante trabalho de divulgação da cultura brasileira.1950 - Vai a Buenos Aires para o nascimento de seu primeiro neto, Carlos Manuel.1951 - Publica "Claro Enigma", "Contos de Aprendiz" e "A mesa". É publicado em Madrid o livro "Poemas".1952 - Publica "Passeios na Ilha" e "Viola de Bolso".1953 - Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação de funcionário da DPHAN. Vai a Buenos Aires para o nascimento de seu neto Luis Mauricio, a quem dedica o poema "A Luis Mauricio infante". É publicado em Buenos Aires o livro "Dos Poemas", com tradução de Manuel Graña Etcheverry, genro do poeta.1954 - Publica "Fazendeiro do Ar & Poesia até agora". Aparece sua tradução para "Les paysans", de Balzac. Realiza na Rádio Ministério de Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série de palestras "Quase memórias". Inicia no Correio da Manhã a série de crônicas "Imagens", mantida até 1969.1955 - Publica "Viola de Bolso novamente encordoada".1956 - Publica "50 Poemas escolhidos pelo autor". Aparece sua tradução para "Albertine disparue", de Marcel Proust.1957 - Publica "Fala, amendoeira" e "Ciclo".1958 - Publica-se em Buenos Aires uma seleção de seus poemas na coleção "Poetas del siglo veinte". É encenada e publicada a sua tradução de "Doña Rosita la soltera" de Federico García Lorca, pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais.1960 - Nasce seu terceiro neto, Pedro Augusto, em Buenos Aires. A Biblioteca Nacional publica a sua tradução de "Oiseaux-Mouches orthorynques du Brèsil" de Descourtilz. Colabora em Mundo Ilustrado.1961 - Colabora no programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. Falece seu irmão Altivo.1962 - Publica "Lição de coisas", "Antologia Poética" e "A bolsa & a vida". É demolida a casa da Rua Joaquim Nabuco 81, onde viveu 36 anos. Passa a morar em apartamento. São publicadas suas traduções de "L'Oiseau bleu" de Maurice Maeterlink e de "Les fouberies de Scapin", de Molière, esta última é encenada no Teatro Tablado do Rio de Janeiro. Recebe novamente o Prêmio Padre Ventura. Se aposenta como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do Ministro da Educação, Oliveira Brito.1963 - É lançada sua tradução de "Sult" (Fome) de Knut Hamsun. Recebe os Prêmios Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, e Luísa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, pelo livro "Lição de coisas". Colabora no programa Vozes da Cidade, instituído por Murilo Miranda, na Rádio Roquete Pinto, e inicia o programa Cadeira de Balanço, na Rádio Ministério da Educação. Viaja, com D. Dolores, a Buenos Aires durante as férias.1964 - Publica a primeira edição da "Obra Completa", pela Aguilar.1965 - São lançados os livros "Antologia Poética", em Portugal; "In the middle of the road", nos Estados Unidos; "Poesie", na Alemanha. Publica, em colaboração com Manuel Bandeira, "Rio de Janeiro em prosa & verso". Colabora em Pulso.1966 - Publica "Cadeira de balanço", e na Suécia é lançado "Naten och rosen".1967 - Publica "Versiprosa", "Mundo vasto mundo", com tradução de Manuel Graña Etcheverry, em Buenos Aires e publicação de "Fyzika strachu" em Praga.1968 - Publica "Boitempo & A falta que ama". Membro correspondente da Hispanic Society of America, Estados Unidos.1969 - Deixa o Correio da Manhã e começa a escrever para o Jornal do Brasil. Publica "Reunião (10 livros de poesia)".1970 - Publica "Caminhos de João Brandão".1971 - Publica "Seleta em prosa e verso". Edição de "Poemas" em Cuba.1972 - Viaja a Buenos Aires com D. Dolores para visitar a filha, Maria Julieta. Publica "O poder ultrajovem". Jornais do Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre publicam suplementos comemorativos do 70º aniversário do poeta.1973 - Publica "As impurezas do branco", "Menino Antigo - Boitempo II", "La bolsa y la vida", em Buenos Aires, e "Réunion", em Paris.1974 - Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários. Membro honorário da American Association of Teachers of Spanish and Portuguese, Estados Unidos. 1975 - Publica "Amor, Amores". Recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura e recusa, por motivo de consciência, o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal.1977 - Publica "A visita", "Discurso de primavera e algumas sombras" e "Os dias lindos". Grava 42 poemas em 2 long plays, lançados pela Polygram. Edição búlgara de "UYBETBO BA CHETA" (Sentimento do Mundo).1978 - Publica "70 historinhas" e "O marginal Clorindo Gato". Edições argentinas de "Amar-amargo" e "El poder ultrajoven".1979 - Publica "Poesia e Prosa", 5ª edição, revista e atualizada, pela editora Nova Aguilar. Viaja a Buenos Aires por motivo de doença de sua filha Maria Julieta. Publica "Esquecer para lembrar - Boitempo III".1980 - Recebe os Prêmios Estácio de Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus (Portugal), de poesia. Edição limitada de "A paixão medida". Noite de autógrafos na Livraria José Olympio Editora para o lançamento conjunto da edição comercial de "A paixão medida" e "Um buquê de Alcachofras", de Maria Julieta Drummond de Andrade; o poeta e sua filha autografam juntos na Casa José Olympio. Edição de "En rost at folket", Suécia. Edição de "The minus sign", Estados Unidos. Edição de "Gedichten" Poemas, Holanda.1981 - Publica "Contos Plausíveis" e "O pipoqueiro da esquina". Edição inglesa de "The minus sign".1982 - Ano do 80º aniversário do poeta. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacional e na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Os principais jornais do Brasil publicam suplementos comemorando a data. Recebe o título de Doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Edição mexicana de "Poemas". A cidade do Rio de Janeiro festeja a data com cartazes de afeto ao poeta. Publica "A lição do amigo - Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade", com notas do destinatário. Publicação de "Carmina drummondiana", poemas de Drummond traduzidos ao latim por Silva Bélkior.1983 - Declina do troféu Juca Pato. Publica "Nova Reunião (19 livros de poesia)", último livro do poeta publicado, em vida, pela Casa José Olympio.1984 - Despede-se da casa do velho amigo José Olympio e assina contrato com a Editora Record, que publica sua obra até hoje. Também se despede do Jornal do Brasil, depois de 64 anos de trabalho jornalístico, com a crônica "Ciao". Publica, pela Editora Record, "Boca de Luar" e "Corpo".1985 - Publica "Amar se aprende amando", "O observador no escritório" (memórias), "História de dois amores" (livro infantil) e "Amor, sinal estranho". Edição de "Frän oxen tid", Suécia.1986 - Publica "Tempo, vida, poesia". Edição de "Travelling in the family", em New York, pela Random House. Escreve 21 poemas para a edição do centenário de Manuel Bandeira, preparada pela editora Alumbramento, com o título "Bandeira, a vida inteira". Sofre um infarto e é internado durante 12 dias.1987 - No 31 de janeiro escreve seu último poema, "Elegia a um tucano morto" que passa a integrar "Farewell", último livro organizado pelo poeta. É homenageado pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira, com o samba enredo "No reino das palavras", que vence o Carnaval 87. No dia 5 de agosto, depois de 2 meses de internação, falece sua filha Maria Julieta, vítima de câncer. "E assim vai-se indo a família Drummond de Andrade" - comenta o poeta. Seu estado de saúde piora. 12 dias depois falece o poeta, de problemas cardíacos e é enterrado no mesmo túmulo que a filha, no Cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. O poeta deixa obras inéditas: "O avesso das coisas" (aforismos), "Moça deitada na grama", "O amor natural" (poemas eróticos), "Viola de bolso III" (Poesia errante), hoje publicados pela Record; "Arte em exposição" (versos sobre obras de arte), "Farewell", além de crônicas, dedicatórias em verso coletadas pelo autor, correspondência e um texto para um espetáculo musical, ainda sem título. Edições de "Moça deitada na grama", "O avesso das coisas" e reedição de "De notícias e não notícias faz-se a crônica" pela Editora Record. Edição de "Crônicas - 1930-1934". Edição de "Un chiaro enigma" e "Sentimento del mondo", Itália. Publicação de "Mundo Grande y otros poemas", na série Los grandes poetas, em Buenos Aires.1988 - Publicação de "Poesia Errante", livro de poemas inéditos, pela Record.1989 - Publicação de "Auto-retrato e outras crônicas", edição organizada por Fernando Py. Publicação de "Drummond: frente e verso", edição iconográfica, pela Alumbramento, e de "Álbum para Maria Julieta", edição limitada e fac-similar de caderno com originais manuscritos de vários autores e artistas, compilados pelo poeta para sua filha. A Casa da Moeda homenageia o poeta emitindo uma nota de 50 cruzeiros com seu retrato, versos e uma auto-caricatura.1990 - O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) organiza uma exposição comemorativa dos 60 anos da publicação de "Alguma Poesia". Palestras de Manuel Graña Etcheverry, "El erotismo en la poesía de Drummond" no CCBB e de Affonso Romano de Sant'Anna, "Drummond, um gauche no mundo". Encenação teatral de "Mundo, vasto mundo", com Tônia Carrero, o coral Garganta e Paulo Autran, sob a direção deste no Teatro II do CCBB. Encenação de "Crônica Viva", com adaptação de João Brandão e Pedro Drummond, no CCBB. Edição da antologia "Itabira", em Madrid, pela editora Visor. Edição limitada de "Arte em exposição", pela Salamandra. Edição de "Poésie", pela editora Gallimard, França.1991 - Publicação de "Obra Poética", pela editora Europa-América, em Portugal.1992 - Edição de "O amor natural", de poemas eróticos, organizada pelo autor, com ilustrações de Milton Dacosta e projeto gráfico de Alexandre Dacosta e Pedro Drummond. Publicação de "Tankar om ordet menneske", Noruega. Edição de "Die liefde natuurlijk" (O amor natural) na Holanda.1993 - Publicação de "O amor natural", em Portugal, pela editora Europa-América. Prêmio Jabuti pelo melhor livro de poesia do ano, "O amor natural".1994 - Publicação pela Editora Record de novas edições de "Discurso de primavera" e "Contos plausíveis". No dia 2 de julho falece D. Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva do poeta, aos 94 anos.1995 - Encenação teatral de "No meio do caminho...", crônicas e poemas do poeta com roteiro e adaptação de João Brandão e Pedro Drummond. Lançamento de um selo postal em homenagem ao poeta. Drummond na era digital, publicação de uma pequena antologia em 5 idiomas sob o título de "Alguma Poesia", no World Wide Web , Internet, na data de seu 93º aniversário. Projeto do CD-ROM "CDA-ROM", que visa a publicar, em ambiente interativo e com os recursos da multimídia, os 40 poemas recitados pelo autor, uma iconografia baseada na coleção de fotografias do poeta, entrevistas em vídeo e um curta-metragem.1996 - Lançamento do livro Farwell, último organizado pelo poeta, no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, com a apresentação de Joana Fomm e José Mayer. Esse livro é ganhador do Prêmio Jabuti.1997 - Primeira edição interativa do livro "O Avesso das Coisas".1998 - Inauguração do Museu de Território Caminhos Dummondianos em Itabira. No dia 31 de outubro é inaugurado o Memorial Carlos Drummond de Andrade, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, no Pico do Amor da cidade de Itabira. Prêmio in memorian Medalha do Sesquicentenário da Cidade de Itabira. 1999 - I Forum Itabira Século XXI — Centenário Drummond, realizado na cidade de Itabira. Lançamento do CD "Carlos Drummond de Andrade por Paulo Autran", pelo selo Luz da Cidade.2000 - Inaugurada a Biblioteca Carlos Drummond de Andrade do Colégio Arnaldo de Belo Horizonte. Lançamento do CD "Contos de aprendiz por Leonardo Vieira", pelo selo Luz da Cidade. Estréia no dia 31 de outubro o espetáculo "Jovem Drummond", estrelado por Vinícius de Oliveira, no teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itabira (Secretaria de Cultura do Município). Lançamento do CD "História de dois amores - contadas por Odete Lara", pela gravadora Luz da Cidade. Encenação pela Comédie Française da peça de Molière Les Fourberies de Scapin, com tradução do biografado, nos teatros Municipal do Rio de Janeiro e Municipal de São Paulo. Lançamento do projeto "O Fazendeiro do Ar", com o "balão Drummond", na Lagoa Rodrigo de Freitas - Rio de Janeiro. II Fórum Itabira Século XXI — Centenário Drummond, realizado em outubro na cidade de Itabira. Homenagem in memoriam Medalha comemorativa dos 70 anos do MEC. Homenagem dos Ex-Alunos da Universidade Federal de Minas Gerais.
Poemas:
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domingo, 25 de novembro de 2007
Voltaire - Alma
Biografia e Poemas "Quem Mexeu No Meu Queijo?" - Spencer Johson Uma maneira fantástica de lidar com as
Empowerment _ Desenvolvimento do Líder Zapp!(Fonte: Alunos do SENAI)
Sistemas de processamento
Capítulo II - Das dúvidas de Locke sobre a alma
Cap III- Da alma das bestas
Cap IV - Sobre a alma e nossas ignorâncias
Cap V - Da necessidade da revelação
VI - As almas dos tolos
VII - Voltaire sempre examinava outros filósofos:
VIII - Teoria quanto ao fundamento
IX - Da antiguidade do dogma da imortalidade da alma
X - O espetáculo de ver a alma
Voltaire ( François Marie Arouet)
Aristóteles - Arte poética
Arte Poética - Da poesia e da imitação segundo osmeios
Diferentes espécies de poesia segundo
Diferentes espécies de poesiaOrigem da poesia.
Da comédia
Da tragédia e de suas diferentes partes
Da extensão da ação
Unidade de ação
CAPÍTULO IX
CAPÍTULO X _Das fábulas
CAPÍTULO XI _ Elementos da ação complexa
Divisões da tragédia
Das qualidades da fábula em relação às personagens...
Dos diversos modos de produzir o terror
Dos caracteres:
Das quatro espécies de reconhecimento
Conselhos aos poetas sobre a composição das tragéd...
Nó, desenlace; tragédia e epopéia; o Coro
Do pensamento e da elocução
Da elocução e de suas partes
Das formas dos nomes; das figuras
Das qualidades da elocução
Da unidade de ação na composição épica
Das partes da epopéia; méritos de Homero
Como se deve apresentar o que é falso
Algumas respostas às críticas feitas à poesia
Superioridade da tragédia sobre a epopéia
Arte Poética - Aristóteles: NOTAS
Cesta-flores-sol e domingo
Carlos Drummond De Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra
Pois de tudo fica um pouco... (Resíduo)
No meio do caminho tinha uma pedra
Filosofia Poética nos versos de Drummond
mudanças em seu trabalho e em sua vida.
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I
É um termo vago, indeterminado, que expressa um princípio desconhecido, porém de efeitos conhecidos que sentimos em nós mesmos. A palavra alma corresponde à animu dos latinos, à palavra que usam todas as nações para expressar o que não compreendem mais que nós. No sentido próprio e literal do latim e das línguas
que dele derivam, significa “ o que anima”. Por isso se diz: A alma dos homens, dos animais e das plantas, para significar seu princípio de vegetação e de vida. Ao pronunciar esta palavra, só nos dá uma idéia confusa, como quando se diz no Gênesis: «Deus soprou no rosto do homem um sopro de vida, e se converteu em alma vivente, a alma dos animais está no sangue, não mateis, pois, sua alma.» De modo que a alma – em sentido geral– se toma pela origem e causa da vida, pela vida mesma. Por isto as nações antigas acreditaram durante muito tempo que tudo morria ao morrer o corpo. Ainda é difícil desentranhar a verdade no caso das histórias remotas, há probabilidade que os egípcios tenham sido os primeiros que distinguiram a inteligência e a alma, e os gregos aprenderam com eles a distinção.
Os latinos, seguindo o exemplo dos gregos, distinguiram animus e anima; e nós
distinguimos também alma e inteligência. Porém o que constitui o princípio de
nossa vida, constitui o princípio de nossos pensamentos? São duas coisas
diferentes, ou formam um mesmo princípio? O que nos faz digerir, o que nos
produz sensações e nos dá memória, se parece ao que é causa nos animais da
digestão, das sensações e da memória?
Há aqui o eterno objeto das disputas dos homens. Digo eterno objeto, porque
carecendo da noção primitiva que nos guie neste exame, teremos que permanecer
sempre encerrados num labirinto de dúvidas e de conjeturas. Não contamos nem com um só apoio onde firmar o pé para chegar ao vago conhecimento do que nos faz viver e do que nos faz pensar. Para possuí-lo seria preciso ver como a vida e o pensamento entram em um corpo. Sabe um pai como produz a seu filho? Sabe a mãe como o concebe? Pode alguém adivinhar como se agita, como se desperta e como dorme? Sabem alguns como os membros obedecem a sua vontade? Terá descoberto o meio pelo qual as idéias se formam em seu cérebro e saem dele quando o deseja? Débeis autômatos, colocados pela mão invisível que nos governa no cenário do mundo, quem de nós poderia ver o fio que origina nossos movimentos?
Não nos atrevemos a questionar se a alma inteligente é espirito ou matéria; se foi criada antes que nós, se sai do nada quando nascemos; se depois de haver nos animado no mundo, vive, quando nós morremos, na eternidade. Essas questões que parecem sublimes, só são questões de cegos que perguntam a cegos: que é a luz?
Quando tratamos de conhecer os elementos que encerra um pedaço de metal, o
submetemos ao fogo em um crisol. Possuiríamos crisol para submeter a alma? Uns dizem que é espirito; porém, que é espírito? Ninguém sabe, é uma palavra tão vazia de sentido, que nos vemos obrigados a dizer que o espírito não se vê, porque não sabemos dizer o que é. A alma é matéria, dizem outros. Porém, o que é matéria? Só conhecemos algumas de suas aparências e algumas de suas propriedades; e nenhuma destas propriedades e aparências parece ter a menor relação com o pensamento.
Há também quem opine que a alma está formada de algo distinto da matéria. Porém que provas temos disso? Se funda tal opinião em que a matéria é divisível e pode tomar diferentes aspectos, e o pensamento não. porém, quem teria dito que os primeiros princípios da matéria sejam divisíveis e figuráveis? é muito verossímil que não o sejam; seitas inteiras de filósofos sustentam que os elementos da matéria não têm forma nem extensão. O pensamento não é madeira, nem pedra, nem areia, nem metal, logo o pensamento não pode ser matéria. Mas esses são raciocínios débeis e atrevidos. A gravidade não é metal, nem areia, nem pedra, nem madeira; o movimento, a vegetação, a vida, não são nenhuma dessas coisas; e, sem dúvida, a vida, a vegetação, o movimento e a gravitação são qualidades da matéria. Dizer que Deus não pode conseguir que a matéria pense, é dizer o absurdo mais insolente que se tenha proferido na escola da demência. Não estamos certos de que Deus tenha feito isso; porém se que estamos certos de que poderia fazê-lo. Que importa tudo o que se tenha dito e o que se dirá sobre a alma? Que importa que a tenham chamado entelequia, quintessência, chama ou éter; que a tenham tomado por universal, incriada, transmigrante, etc., etc? Que importam em questões inacessíveis à razão, essas novelas criadas por nossas incertas imaginações? Que importa que os pais da Igreja dos quatro primeiros séculos acreditassem que a alma era corporal? Que importa que Tertuliano, contradizendo-se, decidisse que a alma é corporal, figurada e simples ao mesmo tempo? Teremos mil testemunhos de nossa ignorância, porém nem um só oferece vislumbre da verdade.
Como nos atrevemos a afirmar o que é a alma? Sabemos com certeza que existimos, que sentimos e que pensamos. Desejamos ir mais além e caímos em abismo. Submergidos nesse abismo, todavia se apodera de nós a louca temeridade de questionar se a alma, da qual não temos a menor idéia, se criou antes que nós ou ao mesmo tempo que nós, e se perece ou é imortal.
A alma e todos os artigos que são metafísicos, devem ser submetidos
sinceramente aos dogmas da Igreja, porque sem dúvida a revelação vale mais que toda a filosofia. Os sistemas exercitam o espírito, porém a fé o alumia e o guia.Com freqüência pronunciamos palavras sobre as quais temos idéia muito confusa, e algumas vezes ignoramos o significado. Não está neste caso a palavra alma? Quando a lingüeta ou válvula de um fole está estragado e o ar que entra no ventre do fole sai por algumas das aberturas que tem a válvula, e este não está comprimido pelas duas paletas, e não sai com a violência que se necessita para atiçar o fogo, as criadas dizem: – Está descomposta a alma do fole. Não sabem mais, e essa questão não turva sua tranqüilidade.
O jardineiro fala da alma das plantas, e as cultiva bem, sem saber o que significa esta palavra. Em muitas de nossas manufaturas, os operários dão a qualificação de alma a suas máquinas; e nunca discutem sobre o significado de tal palavra; não ocorre isso com os filósofos.
A palavra alma entre nós, em seu significado geral, serve para denotar o que anima. Nossos antepassados os celtas, deram à alma o nome de seel, do que os ingleses formaram a palavra soul, e os alemães a palavra seel, e provavelmente os antigos teutões e os antigos bretões não disputariam sobre essa palavra.
Os gregos distinguiam três classes de alma: a alma sensitiva ou a alma dos
sentidos (vê-se aqui porque o Amor, filho de Afrodite, sentiu tão veemente paixão
por Psiquê, e porque Psiquê o amou ternamente): o sopro que dá vida e
movimento a toda máquina, e que nós traduzimos por espírito; e a terceira classe
da alma que, como nós, chamaram inteligência. Possuímos pois, três almas, sem
ter a mais ligeira noção de nenhuma delas. São Tomás de Aquino admite estas
três almas, como bom peripatético, e distingue cada uma delas em três partes:
uma está no peito, outra em todo o corpo e a terceira na cabeça. Em nossas
escolas não se conheceu outra filosofia até o século 18. E desgraçado o homem
que tomasse uma dessas almas por outra!
Há, sem dúvida, motivo para este caos de idéias. Os homens entendiam que
quando os excitavam as paixões do amor, da cólera o do medo, sentiam certos movimentos nas entranhas. O fígado e o coração foram assinalados como sendo o local das paixões. Quando se medita profundamente, sentimos certa opressão nos órgãos da cabeça, logo a alma intelectual está no cérebro. Sem respirar não é possível a vegetação e a vida; logo, a alma vegetativa está no peito, que recebe o sopro do ar.
Quando os homens viram em sonhos seus pais e amigos mortos, dedicaram-se a estudar o que lhes havia aparecido. Não era corpo, porque o havia consumido uma fogueira, o mar o tinha tragado e havia servido de pasto aos peixes. Isso, não obstante, sustinha que algo lhes havia aparecido, posto que o tinham visto; o morto havia lhes falado e o que estava sonhando lhes dirigia perguntas. Com quem haviam conversado dormindo? Se imaginaram que era um fantasma, uma figura aérea, uma sombra, os manes, uma pequena alma do ar e fogo extremadamente delicada, que vagava por não sei onde.
Andando o tempo, quando quiseram aprofundar este estudo, convencionaram que
tal alma era corporal, e esta foi a idéia que dela teve a antigüidade. Chegou depois
Platão, que utilizou essa alma de tal maneira que se chegou a suspeitar que a
separou quase completamente da matéria; porém esse problema não se resolveu
até que a fé veio iluminar-nos.
Em vão os materialistas alegam que alguns pais da Igreja não se expressaram
com exatidão. Santo Irineu diz que e alma é o sopro da vida, que só é incorporal
se comparada ao corpo dos mortais, porém que conserva a figura de homem para
que se a reconheça.
Tertuliano se expressa deste modo: «A corporalidade da alma ressalta no
Evangelho; porque se a alma não tivesse corpo, a imagem da alma não teria
imagem corpórea». Em vão esse mesmo filósofo refere à visão de uma mulher
santa que viu um alma muito brilhante e da cor do ar.
Alegam que Santo Hilário disse, em tempos posteriores: «Não há nada que não seja corporal, nem no céu nem na terra, nem no visível ou invisível; tudo está formado de elementos, e as almas têm sempre uma substância corporal.
Santo Ambrósio, no século 6, disse: «Não conhecemos nada que não seja
material, excetuando-se a Santa Trindade.»
A Igreja decidiu, por unanimidade, que a alma é imaterial. Os citados santos incorreram em um erro que era então universal: eram homens, porém não se equivocaram a respeito à imortalidade, porque os Evangelhos evidentemente a anunciam.
Precisamos nos conformar com a decisão da Igreja, porque não possuímos noção suficiente do que se chama espírito puro e do que se chama matéria. O espírito puro é uma palavra que não nos transmite nenhuma idéia; e só conhecemos matéria por alguns de seus fenômenos. a conhecemos tão pouco, que a chamamos substância, e a palavra substância quer dizer o que está embaixo; porém este embaixo está oculto eternamente para nós; é o segredo do Criador em todas partes. Não sabemos como recebemos a vida, nem como a damos, nem como crescemos nem como digerimos, nem como dormimos, nem como pensamos, nem como sentimos.
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II
Das dúvidas de Locke sobre a alma
O autor do artigo Alma, da Enciclopédia, se guiou escrupulosamente pelas opiniões
de Jaquelet. Porém Jaquelet não nos ensina nada. Ataca a Locke, porque este
modestamente disse: «Quiçá não seremos nunca capazes de conhecer se um ser
material pensa ou não, pela razão de que nos é impossível descobrir por meio da
contemplação de nossas próprias idéias, se Deus teria concedido a qualquer
porção de matéria o poder de conhecer-se e de pensar; ou se uniu a matéria
desse modo preparada uma substância imaterial que pensa. Com relação a nossas
noções, não nos é difícil conceber que Deus pode, se assim lhe compraz,
acrescentar à idéia que temos da matéria, a faculdade de pensar; nem nos é difícil
compreender que possa agregar-lhe outra substância que possua tal faculdade;
porque ignoramos em que consiste o pensamento, e não sabemos tampouco a classe de substância a que o Ser Todo-Poderoso possa conceder esse poder, e que pode criar em virtude da vontade do Criador. Não encontro contradição em que Deus, ser pensante, eterno e todo poderoso, dote se quiser, de alguns graus de sentimento, de perfeição e de pensamento, a certas porções de matéria criada e insensível, e que nos una a ela quando crer conveniente». Como acabamos de ver, Locke fala como homem profundo, religioso e modesto. Pode se dizer que Locke criou a metafísica (assim como Newton criou a física) para conhecer a alma, suas idéias e suas afeções. Não estudou nos livros, porque estes poderiam dar instrução errônea; se contentou com se auto-estudar; e depois de contemplar-se longo tempo, no tratado do entendimento humano apresentou aos homens o espelho onde se havia contemplado. Em uma palavra, reduziu a metafísica ao que deve ser: na física experimental da alma. Conhecidos são os desgostos que lhe proporcionou o manifestar esta opinião, que em sua época pareceu atrevida. Porém era só a conseqüência da convicção que tinha da onipotência de Deus e da debilidade do homem. Não assegurou que a matéria pensa, porém disse que não sabemos bastante para demostrar que é impossível que Deus agregue o dom do pensamento ao ser desconhecido que chamamos matéria, depois de ter nos concedido o dom da gravitação e o dom do movimento, que não são igualmente incompreensíveis.
Locke não foi o único que iniciou esta opinião; indubitavelmente já o abordou antigüidade, posto que considerava a alma como uma matéria muito delicada, e por conseqüência, assegurava que a matéria podia sentir e pensar. Esta foi também a opinião de Gassendi, como se pode ver nas objeções que fez a Descartes: é verdade, diz Gassendi, que sabeis que pensais, porém não sabeis que espécie de substância sois. Portanto, ainda que seja conhecida a operação do pensamento, desconheces o principal de vossa essência, ignorando qual é a natureza dessa substância, da que o ato de pensar é uma das operações. nisso pareceis ao cego que, ao sentir o calor dos raios solares e sabendo que a causa é o sol, acreditara que teria idéia clara e distinta do que é esse astro, porque se lhe perguntarem que é o sol, poderia dizer: «É uma coisa que aquece». O mesmo Gassendi, em seu livro titulado Filosofia de Epicuro, repete algumas vezes que não há evidencia matemática da pura espiritualidade da alma.
Descartes, em uma das cartas que dirigiu a princesa palatina Elisabet, disse:
«Confesso que por meio da razão natural podemos fazer muitas conjeturas respeito ao alma, e acalentar algumas esperanças, porém não podemos ter nenhuma segurança». Neste caso, Descartes ataca em suas cartas o que afirma em seus livros.
Acabamos de ver que os pais da Igreja dos primeiros séculos, acreditando na alma
imortal, acreditavam-na ao mesmo tempo, material. Por isso diziam: «Deus a fez
pensante e pensante a conservará.”
Malebranche provou bastante bem que nós não adquirimos nenhuma idéia por nós mesmos, e que os objetos são incapazes de nos dar. Disto deduzo que provém de Deus. isto equivale a dizer que Deus é o autor de todas nossas idéias. Seu sistema forma um labirinto, no qual uma das veredas conduz ao sistema de Espinosa, outra ao estoicismo e a terceira ao caos.
Depois de disputar muito tempo sobre o espírito e sobre a matéria, acabamos sempre por não entender. Nenhum filósofo logrou levantar com suas próprias força o véu que a natureza tem estendido sobre os primeiros princípios das cosas. Enquanto eles disputam, a natureza obra.
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III
Da alma das bestas
Antes de admitir o estranho sistema que supõe que os animais são umas máquinas incapazes de sensação, os homens não acreditaram nunca que as bestas tivessem alma imaterial, e ninguém foi tão temerário a ponto de se atrever a dizer que a ostra estava dotada de alma espiritual. Estavam em acordo as opiniões e convinham que as bestas haviam recebido de Deus sentimento, memória, idéias, porém não espírito. Ninguém havia abusado do dom de raciocinar ao ponto de afirmar que a natureza concedeu às bestas todos os órgãos do sentimento para que não tivessem sentimento. Ninguém havia dito que gritam quando se as fere, que fogem quando se as persegue, sem sentir dor nem medo. Não se negava então a onipotência de Deus; reconhecendo que pode comunicar à matéria orgânica dos animais, o prazer, a dor, a lembrança, a combinação de algumas idéias: pode dotar a vários deles, como ao macaco, ao elefante, ao cão de caça, o talento para aperfeiçoar-se nas artes que se lhes ensinam. Porém Pereyra e Descartes sustentaram que o mundo se equivocava, que Deus dotara com todos os instrumentos da vida e da sensação aos animais, com o propósito deliberado de que careceriam de sensação e de vida propriamente dita; e outros que teriam pretensões de filósofos, com a idéia de contradizer a idéia de Descartes, conceberam a quimera oposta, dizendo que estavam dotados de espírito os animais, e que teriam alma os sapos e os insetos. Entre estas duas loucuras, a primeira que nega o sentimento aos órgãos que o produz, e a segunda que faz alojar um espírito puro no corpo de uma pulga, houve autores que se decidiram por um meio termo, que chamaram instinto. E o que é o instinto? é uma forma substancial, uma forma plástica, é um “não sei quê”. Serei da sua opinião, quando chameis à maioria das coisas “não sei quê”, quando tua filosofia seja tão debilitada que acabe em “não sei nada”.
O autor do artigo Alma, publicado na Enciclopédia, diz: «Em minha opinião, a
alma das bestas é formada de uma substância imaterial e inteligente. Porém, de
que classe? Deve consistir em um princípio ativo capaz de sensações. Se refletirmos sobre a natureza da alma das bestas, não nos aparece nenhum motivo para crer que sua espiritualização as salve do aniquilamento. É para mim incompreensível poder ter idéia de uma substância imaterial. Representar-se algum objeto, é ter na imaginação uma imagem dele, e até hoje ninguém conseguiu pintar o espírito. Concedo que o autor que acabo de citar entenda conceber pela palavra representar. Porém eu confesso que tampouco a concebo, como não concebo que se possa aniquilar um alma espiritual, como não concebo a criação nem a nada, porque ignoro completamente o princípio de todas as coisas.
Se trato de provar que a alma é um ser real, me contestam dizendo que é uma faculdade; se afirmo que é uma faculdade como a de pensar, me respondem que me equivoco, que Deus, dono absoluto da natureza, faz tudo em mim, dirige todos meus atos e pensamentos; que se eu produzisse meus pensamentos, saberia que produzo cada minuto, e não sei; que só sou um autômato com sensações e com idéias, que dependo exclusivamente do ser Supremo, e estou tão submisso a ele como a argila nas mãos do oleiro.
Confesso, pois, minha ignorância, e que quatro mil volumes de metafísica são insuficientes para nos ensinar o que é alma.
Um filósofo ortodoxo dizia a um heterodoxo: «Como conseguiste chegar a crer que por sua natureza a alma é mortal e que só é eterna pela vontade de Deus? –
Porque experimentei, contestou o outro filósofo.–Como experimentaste? Por acaso morreste? Sim, algumas vezes. Tinha ataques de epilepsia na juventude e asseguro que caía completamente morto durante algumas horas. Depois não experimentava nenhuma sensação, nem recordava o que me havia sucedido. Agora me sucede o mesmo quase todas as noites. Ignoro o momento que durmo, e durmo sem sonhar. Só por conjeturas posso calcular o tempo que dormi. Estou, pois, morto por seis horas a cada vinte e quatro; a quarta parte de minha vida». O ortodoxo sustentou que ele pensava mesmo quando dormia, porém sem saber o que. O heterodoxo replicou: «Creio que penso sempre na outra vida. Porém asseguro que raras vezes penso nesta».
O ortodoxo não se equivocava ao afirmar a imortalidade da alma, porque a fé e a razão demonstram esta verdade: Porém podia equivocar-se ao assegurar que o homem dormindo pensa sempre. Locke confessava francamente que não pensava sempre que dormia; e outro filósofo disse: «O homem possui a faculdade de pensar, porém esta não é sua essência». Deixemos a cada indivíduo a liberdade e o consumo de estudar-se a si mesmo e de perder-se no labirinto de suas idéias.
Não obstante, é curioso saber que em 1730 houve um filósofo que foi perseguido
por haver confessado o mesmo que Locke, ou seja que não exercitava seu
entendimento todos os minutos do dia e da noite, assim como não se servia sempre dos braços e das pernas. Não só a ignorância da corte o perseguiu, mas também a ignorância maligna de alguns que pretendiam ser literatos. O que só produz na Inglaterra algumas disputas filosóficas, produz em França covardes atrocidades. Um francês foi vítima por seguir Locke.
Sempre houve na lama de nossa literatura alguns miseráveis capazes de vender sua pluma e atacar até seus mesmos benfeitores. Esta observação parece impertinente em um artigo que trata da alma; mas não devemos perder nenhuma ocasião de observar a conduta dos que querem desonrar o glorioso título de homem de letras, prostituindo seu escasso talento e consciência a um vil interesse, a uma política quimérica e que fazem traição a seus amigos para adular os néscios. Não sucedeu nunca em Roma denunciarem Lucrecio por haver posto em verso o sistema de Epicuro; nem a Cícero por dizer muitas vezes que depois de morrer não se sente dor, nem acusaram Plínio, nem a Varrão de ter idéias particulares acerca da Divindade. A liberdade de pensar foi ilimitada em Roma. Os homens de curtos alcances e temerosos de em França se tem esforçado em afogar essa liberdade, mãe de nossos conhecimentos e incentivo do entendimento humano, para conseguir seus fins tem falado dos perigos quiméricos que esta pode trazer. Não refletiram que os romanos, que gozavam de completa liberdade de pensar, nem por isso deixaram de ser nossos vencedores e nossos legisladores, e que as disputas de escola tem tão pouca relação com o governo, como o tonel de Diógenes teve com as vitorias de Alexandre. Esta lição equivale a uma lição respeito à alma: quiçá teremos algumas ocasiões de insistir sobre ela. Ainda adoremos a Deus com toda a alma, devemos confessar nossa profunda ignorância respeito ao alma, a essa faculdade de sentir e de pensar que devemos a sua bondade infinita. Confessemos que nossos débeis racioc ínios nada encerram e nada acrescentam; e deduzamos de isto que devemos empregar a inteligência, cuja natureza desconhecemos, em aperfeiçoar as ciências, como os relojoeiros empregam as molas nos relógios, sem saber o que é uma mola.
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IV
Sobre a alma e nossas ignorâncias
Fundado nos conhecimentos adquiridos, nos temos atrevido a questionar se a
alma se criou antes que nós, se chega do nada a introduzir-se em nosso corpo, a
que idade vem colocar-se entre uma bexiga e os intestinos, se ali recebe o aporte
algumas idéias, e que idéias são estas; se depois de animar-nos alguns
momentos, sua essência, logo que o corpo morre, vive na eternidade; se sendo
espírito, o mesmo que Deus, é diferente deste ou é semelhante. Essas questões
que parecem sublimes, como dizemos, são as questões que entabulam os cegos
de nascimento respeito da luz.
O que nos tem ensinado os filósofos antigos e os modernos? Nos tem ensinado
que uma criança é mais sábia que eles, porque este só pensa não que pode
conseguir. Até agora a natureza dos primeiros princípios é um segredo do Criador.
Em que consiste que os ares arrastam os sons? Como é que alguns de nossos membros obedecem constantemente a nossa vontade? Que ma é a que coloca as idéias na memória, as conserva ali como em um registro e as saca quando queremos e também quando não queremos? Nossa natureza, a do universo e a das plantas, estão escondidas em um abismo de trevas. O homem é um ser que obra, que sente e pensa: é isso o todo que sabemos; porém ignoramos o que nos faz pensar, sentir e obrar. A faculdade de obrar é tão incompreensível para nós como a faculdade de pensar. É menos difícil conceber que o corpo de barro tenha sentimentos e idéias que conceber que um ser tenha idéias e sentimentos. Compara a alma de Arquimedes com a alma de um imbecil: são as duas de uma mesma natureza? Se é essencial o pensar, pensarão sempre com independência do corpo, que não poderá obrar sem elas; se pensam por sua própria natureza, será da mesma espécie a alma que não pode compreender uma regra de aritmética, que a alma que mediu os céus? Se os órgãos corporais fazem pensar a Arquimedes, por que um idiota, melhor constituído e mais vigoroso que Arquimedes, dirigindo melhor e desempenhando com mais perfeição as funções corporais, não pensa? A isto se contesta que seu cérebro não é tão bom; porém isso é uma suposição, porque os que assim contestam não sabem. Não se encontrou nunca diferença alguma nos cérebros dissecados; e é ademais verossímil que o cerebelo de um tonto se encontre em melhor estado que o de Arquimedes, que o usou e o fatigou prodigiosamente.
Deduzamos, pois, disto o que antes deduzimos, que somos ignorantes ante os primeiros princípios.
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V
Da necessidade da revelação
O maior beneficio que devemos ao Novo Testamento, consiste em nos ter revelado a imortalidade da alma. Inútil foi que o bispo Warburton tratara de obscurecer tão importante verdade, dizendo continuamente que «os antigos judeus desconheciam esse dogma necessário, e que os saduceus não o admitiam na época de Jesus». Interpreta a seu modo as palavras que dizem que Cristo pronunciou: «Ignorais que Deus disse: eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isac e o Deus de Jacó? Logo Deus não é o Deus dos mortos, e o Deus dos vivos». Atribui à parábola do mau rico o sentido contrário ao que atribuem todas as igrejas. Sherlock, bispo de Londres, e outros muitos sábios o refutam; os mesmos filósofos ingleses acham escandaloso que um bispo anglicano tenha a opinião contrária da Igreja anglicana; e Warburten, ao se ver contrariado, chama ímpios a ditos filósofos, imitando a Arlequim, personagem da comedia titulada o Ladrão da Casa, que depois de roubar e arrojar os móveis pela janela, vendo que na rua um homem levava alguns, gritou com toda a força de seus pulmões: – Pega ladrão!
Vale mais bendizer a revelação da imortalidade da alma e as das penas e recompensas depois da morte, que a soberba filosofia de homens que semeiam a
dúvida. o grande César não acreditava; disse em pleno Senado, quando para
impedir que matassem a Catilina, expôs seu critério, segundo o que a morte não
deixava no homem nenhum sentimento, e tudo morria com ele. Ninguém refutou
esta opinião.
O império romano estava dividido em duas grandes seitas: a de Epicuro, que sustinha que a divindade era inútil no mundo, e que a alma perecia com o corpo; e a dos estóicos, que sustentava ser a alma era uma porção da divindade, a qual depois da morte do corpo voltava a sua origem, isto é, ao grande todo de onde havia emanado. Umas seitas acreditavam que a alma era mortal e outras que era imortal, porém todas elas estavam conformes em fugir das penas e as buscar recompensas futuras.
Restam todavia bastantes provas de que os romanos tiveram tal crença; e esta opinião, profundamente gravada nos corações dos heróis e dos cidadãos romanos, os induzia a matar-se sem o menor escrúpulo, sem esperar que o tirano os entregasse ao verdugo.
Os homens mais virtuosos de então, que estavam convencidos da existência de um Deus, não esperavam na outra vida nenhuma recompensa, nem temiam nenhum castigo. Vemos no artigo titulado Apócrifo, que Clemente, que mais tarde foi Papa e Santo pôs em dúvida que os primitivos cristãos acreditassem na segunda vida, e sobre isto consultou a São Pedro em Cesárea. Não cremos que São Clemente escreveu a história que se lhe atribui; porém essa história prova que o gênero humano necessitava guiar-se pela revelação. O que neste assunto nos surpreende é que um dogma tão saudável tenha permitido que cometam brilhantes crimes os homens que vivem tão pouco tempo e que se vem comprimidos entre duas eternidades.
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VI
As almas dos tolos e dos monstros
Nasce uma criança mal formada e absolutamente imbecil, não concebe idéias e vive sem elas. Como podemos definir esta classe de animal? Uns doutores dizem que é algo entre o homem e a besta, outros, que possui um alma sensitiva, porém não alma intelectual. Come, bebe e dorme, tem sensações, porém não pensa. Existe para ele a outra vida, ou não existe? Se tem proposto este caso, porém até hoje não se obteve completa resolução.
Alguns filósofo tem dito que a referida criatura devia ter alma, porque seu pai e sua mãe a teriam; Porém guiando-nos por este raciocínio, se tivesse nascido sem nariz, devíamos supor que o teria, porque seu pai e sua mãe tiveram.
Una mulher dá à luz a uma criança que tem o rosto achatado e escuro, um nariz
afilado e pontiagudo, olhos redondos e, apesar disso, o resto do corpo é idêntico
ao dos demais mortais. Os pais decidem que tenha batismo, e todo o mundo acredita que possua uma alma imortal. Porém, se essa mesma ridícula criatura tem unhas em forma de ponta e a boca em forma de bico, declaram-no monstro, dizem que não tem alma e não o batizam.
Sabido é que em Londres, em 1726, houve uma mulher que paria cada oito dias um coelhinho. Sem nenhuma dificuldade, batizavam a dita criança. O cirurgião que assistia a referida mulher no parto, jurava que esse fenômeno era verdadeiro, e acreditavam. Porém, que motivo teriam os crédulos para negar que tivessem alma os filhos de tal mulher? Ela a teria, seus filhos deviam também tê-la. O Ser Supremo não pode conceder o dom do pensamento e o da sensação ao ser desfigurado que nasça de uma mulher em forma de coelho, ou mesmo que o que nasça em figura de homem? A alma que se predisporia a alojar-se no feto dessa mãe, seria capaz de voltar ao vazio?
Locke observa sobre os monstros, que não deve atribuir-se a imortalidade ao exterior do corpo, que a configuração nada importa neste caso. A imortalidade não está mais ligada à forma do rosto ou do tórax, que à configuração da barba o ao feitio do traje; e pergunta: Qual é a justa medida de deformidade para que se considere se uma criança tem ou não alma? Qual o grau para ser declarado monstro?
Que temos de pensar nesta matéria de uma criança que tenha duas cabeças e
que, apesar disto, tenha um corpo bem proporcionado? Uns dizem que tem duas
almas, porque está provido de duas glândulas pineais, e outros contestam
dizendo que não pode ter duas almas quem não tem mais que um peito e um
umbigo.
Se tem questionado tanto sobre a alma humana, que se esta chegasse a examinar todas, seria vítima de insuportável fastio. Aconteceria o mesmo que ocorreu ao cardeal de Polignac em um conclave. Seu intendente, cansado de não pode inteirar nunca das contas da intendência, fez com o cardeal uma viagem a Roma e se colocou na janela de sua cela, carregando um imenso fardo de papéis. Ficou ali lendo as contas mais de duas horas, enquanto esperava pela volta de Polignac. Por fim, vendo que não obteria nenhuma contestação, meteu a cabeça pela janela. Há duas horas que o cardeal havia saído de sua cela. Nossas almas nos abandonam antes que seus intendentes se tivessem inteirado do tanto que delas nos temos ocupado.
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VII
Devo confessar que sempre que examino ao infatigável Aristóteles, ao doutor Angélico e ao divino Platão, tomo por motes estes epítetos que se lhes aplicam.
Parece-me que todos os filósofos se tem ocupado da alma humana, cegos,
charlatães e temerários, que fazem esforços para persuadir-nos de que tem vista
de águia, e vejo que há outros amantes da filosofia, curiosos e loucos, que os acreditam em sua palavra, imaginando, por sugestão, que vêem algo. Não vacilo em colocar na categoria de mestres de erros Descartes e Malebranche. Descartes nos assegura que a alma do homem é uma substância, cuja essência é pensar que pensa sempre, e que se ocupa desde o ventre da mãe de idéias metafísicas e de ações gerais que esquece em seguida. Malebranche está convencido de que todo vemos em Deus. Se encontrou partidários, é porque as fábulas mais atrevidas são as que melhor recebem a débil imaginação do homem. Muitos filósofos tem escrito a novela da alma; Porém um sábio é o único que tem escrito modestamente sua história. Compendiarei essa história segundo a concebo. Compreendo que todo o mundo não estará de acordo com as idéias de Locke: pode ser que Locke tenha razão contra Descartes e Malebranche, e que se equivoque sobre Sorbonne; porém eu falo do ponto de vista da filosofia, não do ponto das revelações da fé.
Só me corresponde pensar humanamente. Os teólogos que decidam respeito do divino: a razão e a fé são de natureza contrária. Em uma palavra, vou a citar um extrato de Locke, a quem eu censuraria se fosse teólogo, porém a quem patrocino como uma hipóteses, como conjetura filosófica humanamente falando. Se trata de saber o que é a alma.
1º a palavra alma é uma dessas palavras que pronunciamos sem entender, só entendemos as coisas quando temos idéia delas, não temos idéia da alma, logo não a compreendemos.
2º Se nos tenha ocorrido chamar alma à faculdade de sentir e pensar, assim como chamamos vida a faculdade de viver e vontade à faculdade de querer. Alguns disseram em seguida isto: –O homem é um composto de matéria e de espírito; a matéria é extensa e divisível, o espírito não é uma coisa nem outra, logo é de natureza distinta. É uma reunião de dois seres que não criados um para o outro e que Deus uniu apesar de sua natureza. Apenas vemos o corpo, e absolutamente não vemos a alma. Esta não tem partes; logo é eterna: tem idéias puras e espirituais, logo não as recebe da matéria: tampouco as recebe de si mesma; logo Deus se as dá, logo ela aporta ao nascer a idéia de Deus e do infinito, e todas as idéias gerais.
Humanamente falando, contesto essas palavras, dizendo que são muito sábios.
Começam concedendo que existe alma, e logo explicam o que deve ser:
pronunciam a palavra matéria e decidem o que a matéria é. Porem eu lhes
explico: não conheceis nem o espírito nem a matéria. Quanto ao espírito, só
concedeis a faculdade de pensar; e enquanto à matéria, compreendeis que esta
não é mais que uma reunião de qualidades, de cores, e de solidez; a essa reunião
chamais matéria, e marcais os limites desta e os da alma antes de estar seguros
da existência de uma e de outra.
Ensinais gravemente que as propriedades da matéria são a extensão e a solidez; e eu os repito modestamente que a matéria tem outras mil propriedades, que nem vocês nem eu conhecemos. Assegurais que a alma é indivisível e eterna, dando por certo o que é questionável. Obrais quase o mesmo que o diretor de um colégio que, não tendo visto um relógio em sua vida, puserem em suas mão de repente um relógio de repetição inglês. Esse diretor, como bom peripatético, fica surpreso ao ver a precisão com que as setas dividem e marcam o tempo, e se assombra quando o botão comprimido pelo dedo faça tocar a hora que a seta marca. O filósofo não duvida um momento que dita máquina tenha um alma que a dirige e que se manifesta por meio dos cordas. Demonstra cientificamente sua opinião, e compara essa máquina com os anjos, que imprimem movimento às esferas celestes, sustentando em classe uma agradável teses sobre a alma dos relógios, um de seus discípulos abre o relógio e não vê mais que as rodas e molas, e mesmo assim, segue sustentando sempre o sistema da alma dos relógios, crendoo demostrado. Eu sou o estudante que abre o relógio, que se chama homem e que em vez de definir com atrevimento o que não compreendemos, trata de examinar por graus o que desejamos conhecer.
Tomemos uma criança desde o momento em que nasce, e sigamos passo a passo
o progresso de seu entendimento. Ensinaram-me que Deus se tomou o trabalho
de criar um alma para que se alojasse no corpo de dita criança quando este
tivesse cerca de seis semanas, e que quando se introduz em seu corpo está
provisão de idéias metafísicas, conhece o espírito, as idéias abstratas e o infinito;
em uma palavra, é sábia. Porém desgraçadamente sai do útero com uma completa
ignorância; passa dezoito meses sem conhecer mais que o peito da nutriz, e
quando chega aos vinte anos, e se pretende que essa alma recorde idéias
científicas que teve quando se uniu a seu corpo, é muitas vezes tão obtusa, que
nem sequer pode conceber nenhuma de aquelas idéias. O mesmo dia que a mãe
pare a citada criança com sua alma, nascem na casa um cão, um gato e um
canário. ao cabo de dezoito meses, o perro é excelente caçador, ao ano o canário
canta muito bem, e o gato ao cabo de seis semanas possui todos os atrativos que
deve possuir e a criança, ao cumprir quatro anos, não sabe nada. Suponho que eu
seja um homem grosseiro, que tenha presenciado tão prodigiosa diferença e que
não tenha visto nunca uma criança; desde logo acredito que o gato, o cão e o
canário, são criaturas muito inteligentes, e que a criança é um autômato. Porém
pouco a pouco vou percebendo que a criança tem idéias, memória e as mesmas
paixões que esses animais, e então compreendo que é uma criatura razoável como
elas. Comunica-me diferentes idéias por meio das palavras que aprendi, como o
cão por seus distintos gritos me faz conhecer suas diversas necessidades. Percebo
que aos sete ou oito anos a criança combina em seu cérebro quase tantas idéias
como o cão de caça no seu, e que por fim, passando os anos consegue adquirir
grande número de conhecimentos Então que devo pensar dele? Que é de uma
natureza completamente diferente. Não posso crer porque vocês vêem um imbecil
ao lado de Newton, e sustentam que um e outro são da mesma natureza, com a
única diferença do mais ao menos. Encontro entre uma criança e um cão muitos
mais pontos de contato que encontro entre o homem de talento e o homem
absolutamente imbecil Que opinião tens, pois, dessa natureza? A que todos os povos tiveram antes que a ciência egípcia trouxesse a idéia de espiritualidade, de imortalidade da alma Até suspeitarei, com aparências de verdade, que Arquimedes e um tolo são da mesma espécie, ainda que de gênero diferente; que a oliveira e o grano de mostarda estão formados pelos mesmos princípios, ainda que aquela seja um árvore grande e esta uma planta pequena. Crerei que Deus concedeu porções de inteligência às porções de matéria organizadas para pensar, que a matéria está dotada de sensações proporcionadas de acordo com a finura de seus sentidos e que estes proporcionam a medida de nossas idéias. Crerei que a ostra tem menos sensações e menos sentido, porque tendo a alma dentro da concha, os cinco sentidos são inúteis para ela. Há muitos animais que só estão dotados de dois sentidos; nós temos cinco, e por certo que são muito poucos. É de crer que em outros mundos existam outros animais que estejam dotados de vinte o de trinta sentidos e outras espécies muito mais perfeitas que tenham muitos mais.
Esta parece a maneira mais lógica de raciocinar, quero dizer, de suspeitar e
adivinhar. Indubitavelmente passou muito tempo antes que os homens fossem
bastante engenhosos para inventar um ser desconhecido que está em nós, que
nos faz obrar, que não é completamente nós, e que vive depois que nós
morremos. Desse modo se chegou por graus a conceber idéia tão atrevida. No
princípio, a palavra alma significou vida, e era comum para nós e para os demais
animais; logo nosso orgulho nos fez suspeitar que a alma só correspondia ao
homem, e então inventamos uma forma substancial para as demais criaturas: o
orgulho humano pergunta em que consiste a faculdade de aperceber-se e de
que se chama alma no homem e instinto no bruto. Elucidarei essa questão quando
os físicos me ensinem o que é a luz, o som, o espaço, o corpo e o tempo. Repetirei
com o sábio Locke: a filosofia consiste em deter-se quando a tocha da física não
nos alumia.
Observo os efeitos da natureza; Porém confesso que, como vocês, tampouco
conheço os primeiros princípios. Tudo se reduz a que não devo atribuir a muitas causas, e muito menos a causas desconhecidas, o que posso atribuir a uma causa conhecida: posso atribuir a meu corpo a faculdade de pensar e de sentir, logo não devo buscar a faculdade de sentir e de pensar no que se chama alma ou espírito, do que não tenho a menor idéia. Os sublevais contra esta proposição, e creéis que é religiosidade atrever -se a dizer que o corpo possa pensar. Porém que contestarias –responderia Locke,– se os dissesse que vocês sois também culpáveis de irreligião, porque se atrevem a limitar o poder de Deus? Quem, sem ser ímpio, pode assegurar que é impossível para Deus dotar à matéria da faculdade de sentir e de pensar? Sois ao mesmo tempo débeis e atrevidos, assegurais que a matéria não pensa, unicamente porque não concebeis que a matéria possa pensar. Grandes filósofos, que decidis sobre o poder de Deus, e ao mesmo tempo concedeis que pode Deus converter uma pedra em um anjo (Mateus, cap III, vers.
9.), não compreendeis que segundo suas mesmas teorias e no citado caso, Deus concederia à pedra a faculdade de pensar? Se a matéria da pedra desaparecera, não seria pedra, seria anjo. De qualquer parte que questioneis, os vereis obrigados a confessar duas coisas, sua ignorância e o poder imenso do Criador: sua ignorância nega que a matéria possa pensar, e a onipotência do Criador nos demonstra que lhe é possível conseguir que a matéria pense. Sabendo que a matéria não perece, não deveis negar a Deus o poder de conservar nessa mesma matéria a melhor das qualidades de que a dotou. A extensão subsiste sem corpo por si mesma, já que há filósofos que acreditam no vazio; os acidentes subsistem independentes da substância para os cristãos que acreditam na substanciação. Dizeis que Deus não pode fazer nada que implique contradição, porém para encontrar esta se necessita saber muito mais do que sabemos; e nesta matéria só sabemos que temos corpo e que pensamos. Alguns que aprenderam na escola a não duvidar, e que tomam por oráculos os silogismos que nelas lhes ensinaram e as superstições que aprenderam por religião, tem a Locke por ímpio perigoso. Devemos fazer-lhes compreender o erro em que incorrem e ensinar-lhes que as opiniões dos filósofos jamais prejudicaram à religião. Está provado que a luz provém do sol, e que os planetas giram ao redor desse astro: por isto não se lê com menos fé na Bíblia que a luz se formou antes do sol, e que o sol parou ante a aldeia de Gabão. Está demostrado que o arco-íris se forma com a chuva e por isso não se deixa de respeitar o texto sagrado, que disse que Deus pôs o arco-íris nas nuvens, depois do dilúvio, como sinal de que já não haveria mais inundações.
Os mistérios da Trindade e da Eucaristia, que contradiz nas demonstrações da razão, não por isso deixam de reverencia-los os filósofos católicos, que sabem que a razão e a fé são de diferente natureza. A idéia dos antípodas foi condenada pelos papas e os concílios; e logo outros papas reconheceram os antípodas, aonde levaram a religião cristã, cuja destruição acreditaram segura no caso de poder encontrar um homem, que, como se dizia então, tivesse a cabeça abaixo e os pies acima, com relação a nós, e que, como disse Santo Agostinho, tivesse caído do céu.
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VIII
Suponho que há em uma ilha uma dúzia de filósofos bons, e que em essa ilha não tem visto mais que vegetais. Esta ilha, e sobretudo os doze filósofos bons, são difíceis de encontrar; porém permita-me esta ficção. Admiram a vida que circula pelas fibras das plantas, que parece que se perde e se renova em seguida; e não compreendendo bem como as plantas nascem, como se alimentam e crescem, chamam a estas operações alma vegetativa. «Que entendeis por alma vegetativa?
– É uma palavra, respondem, que serve para explicar a mola desconhecida que
move a vida das plantas. – Porém não compreendeis, lhes replica um mecânico,
que esta a desenrola os pesos, as alavancas, as rodas e as polias?– Não,
replicarão ditos filósofos; em sua vegetação há algo mais que movimentos
ordinários; existe em todas as plantas o poder secreto de atrair o sumo que as nutre: e esse poder, que não pode explicar nenhum mecânico, é um dom que Deus concedeu à matéria, cuja natureza nos é desconhecida». Depois dessa questão, os filósofos descobrem os animais que há na ilha, e logo de examiná-los atentamente, compreendem que há outros seres organizados como os homens. Esses seres é indubitável que tem memória, conhecimento, que estão dotados das mesmas paixões que nós, que nos fazem compreender suas necessidades, e como nós, perpetuam sua espécie. Os filósofos dissecam alguns animais, lhes encontram coração e cérebro, e exclamam: « O autor dessas máquinas, que não cria nada inútil, lhes tivesse concedido todos os órgãos do sentimento com o propósito de que não sentissem? Seria absurdo acreditar nisso. Encerram algo que chamaremos também alma, na falta de outra expressão mais própria algo que experimenta sensações e que em certa medida tem idéias. Porém qual é esse princípio? É diferente da matéria? É espírito puro? É um ser intermediário entre a matéria, que apenas conhecemos, e entre o espírito puro, que nos é completamente desconhecido? É uma propriedade que Deus concedeu à matéria orgânica?» Os filósofos, para estudar essa matéria, fazem experimentos com os insetos e os lagartos; cortam-nos, dividindo-os em muitas partes, e ficam surpresos ao ver que ao passar algum tempo nascem cabeças nas partes cortadas. Ou mesmo que o animal se reproduz, em sua própria destruição encontra o meio de multiplicar-se.
Há muitas almas que estão esperando para animar partes reproduzidas. Parecemse
com árvores das quais se cortam ramos e, plantando-os, se reproduzem. Essas
árvores têm muitas almas? Não parece possível. Logo, é provável que a alma das
bestas seja de outra espécie que as que chamamos de alma vegetativa nas
plantas, que seja uma faculdade de ordem superior que Deus concedeu a certas
porções de matéria para dar-nos outra prova de seu poder e outro motivo para
adorá-lo.
Se ouvisse este raciocínio de um homem violento, lhe diria: «Sois um malvado
merece que o queime o corpo para salvar as almas, porque negais a imortalidade da alma do homem». Os filósofos, ao ouvir isso, se olhariam com surpresa; e depois, um deles contestaria com suavidade ao homem violento: Por que acreditas que devemos arder em uma fogueira e que o induzo a supor que abriguemos nós o conhecimento de que é mortal vossa alma cruel? – Porque abrigais a crença de que Deus concedeu aos brutos, que estão organizados como nós, a faculdade de ter sentimentos e idéias; e como a alma das bestas morre com seus corpos, acreditas também que o mesmo morre a alma dos homens. Um dos filósofos replicaria:
–Não temos a segurança de que o que chamamos de alma nos animais se pareça
quando esses deixam de viver; estamos persuadidos que a matéria não perece, e
supomos que Deus haja dotado os animais de algo que pode conservar, se esta é
a vontade divina, a faculdade de ter idéias. Não asseguramos que isto suceda,
porque não é próprio de homens ser tão confiados; Porém não nos atrevemos a
pôr limites ao poder de Deus. Dizemos apenas que é provável que as bestas, que são matéria, tenham recebido um tanto de inteligência. Descobrimos todos os dias propriedades da matéria, que antes de descobri-las não tínhamos idéia de que existiram. Começamos definindo a matéria, dizendo que era uma substância que teria extensão; logo reconhecemos que também teria solidez, e mais tarde tivemos que admitir que a matéria possui uma força que chamamos força de inércia, e ultimamente nos surpreendeu a nós mesmos ter que confessar que a matéria gravita. Ao avançar em nossos estudos, nos vimos obrigados a reconhecer seres que se parecem em algo à matéria, e que, contudo, carecem dos atributos de que a matéria está dotada. O fogo elementar, por exemplo, obra sobre nossos sentidos como os demais corpos; porém não tem a um centro comum como estes; pelo contrario, se escapa do centro em linhas retas por todas partes; e não parece que obedeça às leis de atração e de gravitação como os outros corpos. A óptica tem mistérios que só podemos explicar atrevendo-nos a supor que os raios da luz se compenetram. Efetivamente, há algo na luz que a distingue da matéria comum: parece que a luz seja um ser intermediário entre os corpos e outras espécies de seres que desconhecemos. é verossímil que essas outras espécies de seres sejam o ponto intermediário que conduza até outras criaturas, e que assim sucessivamente exista uma cadeia de substâncias que se elevem até o infinito. Essa idéia nos parece digna da grandeza de Deus, se há alguma idéia humana digna dela. Entre essas substâncias pôde Deus escolher uma para alojá-la em nossos corpos, e é a que nós chamamos alma humana. Os livros santos nos ensinam que essa alma é imortal, e a razão está nisso de acordo com a revelação: nenhuma substância perece: as formas se destroem, o ser permanece. não podemos conceber a criação de uma substância; tampouco podemos conceber seu aniquilamento. Porém nos atrevemos a afirmar que o Senhor absoluto de todos os seres pode dotar de sentimentos e de percepções ao ser que se chama matéria. Estais seguro de que pensar é a essência de sua alma, porém nós não estamos; porque quando examinamos um feto nos custa grande trabalho crer que sua alma teve muitas idéias em sua envoltura materna, e duvidamos que em seu sonho profundo, em sua completa letargia, tenha podido dedicar-se à meditação. Por isso nos parece que o pensamento possa consistir não na essência do ser pensante, senão no presente que o Criador fez a esses seres que chamamos pensadores; e tudo isto nos faz suspeitar que se Deus quisesse, poderia outorgar esse dom a um átomo, conservá-lo o destruí-lo, segundo fosse sua vontade. A dificuldade consiste menos em adivinhar como a matéria pode pensar, que em adivinhar como pensa uma substância qualquer. Só concebemos idéias, porque Deus as quis dar. Por que o empenho em se opor a que as tenha concedido às demais espécies? Atrevem-se a crer que sua alma seja da mesma classe que as substâncias que estão mais próximas da divindade? Há motivo para suspeitar que estas sejam de ordem superior e, portanto, Deus lhes haja concedido uma maneira de pensar infinitamente mais formosa; assim como concedeu quantidade muito limitada de idéias aos animais, que são de um ordem inferior aos homens.
Não sei como vivo nem como dou a vida, e querem que saiba como concebo
idéias! A alma é um relógio que Deus nos concedeu para dirigirmos, porém não
nos explicou a maquinaria de que o relógio se compõe.
De tudo quanto digo não é possível inferir que a alma humana seja mortal. Em resumo: pensamos o mesmo que vos sobre a imortalidade que a fé nos anuncia; porém somos demasiado ignorantes para poder afirmar que Deus não tenha poder para conceder a faculdade de pensar ao ser que Ele queira. Limitais o poder do Criador, que é sem limites, e nós o estendemos até onde alcança sua existência. Perdoe-nos que o cremos onipotente, e nós os perdoaremos que restrinjais seu poder. Sem dúvida sabeis tudo o que pode fazer e nós ignoramos. Vivamos como irmãos, adorando tranqüilamente ao Pai comum. Só temos de viver um dia, vivamos em paz, sem proporcionarmos questões que se decidirão na vida imortal».
O homem brutal, não encontrando nada que replicar aos filósofos, incomodandose, falou e disse muitas bobagens. Os filósofos se dedicaram durante algumas semanas a ler história, e depois deste estudo, eis aqui o que disseram àquele bárbaro indigno de estar dotado de alma imortal:
«Temos lido que na antigüidade havia tanta tolerância como em nossa época, que nela se encontram grandes virtudes, e que por suas opiniões não perseguiam aos filósofos. Por que, pois, pretendeis que nos condenem ao fogo pelas opiniões que professamos? Acreditavam na antigüidade que a matéria era eterna; porém os que supunham que era criada, não perseguiram aos que não acreditavam. Dissese então que Pitágoras, em uma vida anterior, havia sido galo, que seus pais haviam sido cervos, e apesar disto, sua seita foi querida e respeitada em todo o mundo. Os estóicos reconheciam um Deus mais o menos semelhante ao que admitiu depois temerariamente Espinosa; o estoicismo, sem dúvida, foi a seita mais acreditada e a mais fecunda em virtudes heróicas. Para os epicuristas, os Deuses eram semelhantes a nossos cônegos e sua indolente gordura sustentava sua divindade, e tomavam em paz o néctar e a ambrosia sem imiscuir-se em nada. Os epicuristas ensinavam a materialidade e a mortalidade da alma, porém não por isso deixaram de ter-lhes considerações, e eram admitidos a todos os empregos.
Os platônicos não acreditavam que Deus se tivesse dignado criar o homem por si mesmo; diziam que havia confiado este encargo aos gênios, que ao desempenhar sua tarefa cometeram muitas bobagens. O Deus dos platônicos era um obreiro sem defeitos, porém que empregou para criar o homem discípulos muito incompetentes. Não por isso a antigüidade deixou de apreciar a escola de Platão. Numa palavra: quantas seitas conheceram os gregos e os romanos, teriam distintos modos de opinar sobre Deus, sobre a alma, sobre o passado e sobre o porvir; e nenhuma dessas seitas foi perseguida. Todas essas seitas se equivocavam, porém viveram em amistosa paz, e isto é o que não alcançamos a compreender, porque hoje vemos que a maior parte dos debatedores são monstros e os da antigüidade eram verdadeiros homens.
Se desde os gregos e os romanos queremos remontar às nações mais antigas,
podemos fixar a atenção nos judeus. Esse povo que foi supersticioso, cruel, ignorante e miserável, sabia, sem dúvida, honrar aos fariseus, que acreditavam na fatalidade do destino e na metempsicose. Respeitava também aos saduceus, que negavam em absoluto a imortalidade da alma e a existência dos espíritos, fundando-se na lei de Moisés, que não falou nunca de penas nem de recompensas depois da morte. Os essênios, que acreditavam também na fatalidade, e nunca sacrificavam vítimas no templo, eram mais respeitados todavia que os fariseus e saduceus. Nenhuma dessas opiniões perturbou nunca o governo do Estado. Devemos, pois, imitar esses louváveis exemplos; devemos pensar em alta voz, e deixar que pensem o que quiserem os demais. Sereis capaz de receber cortesmente a um turco que acredite que Maomé viajou para a lua, e desejais esquartejar a um irmão seu porque acredita que Deus pode dotar de inteligência a todas as criaturas?» Assim falou um dos filósofos; e outro completou: – «Acredite, não há exemplo de nenhuma opinião filosófica que prejudique à religião de nenhum povo. Os mistérios podem contradizer as demonstrações científicas; nem por isso deixam de respeitá-los os filósofos cristãos, que sabem que os assuntos da razão e da fé são de diferente natureza. Sabeis por que os filósofos não lograrão nunca formar uma seita religiosa? Pois não a formarão porque carecem de entusiasmo. Se dividimos o gênero humano em vinte partes, compõem as dezenove os homens que se dedicam a trabalhos manuais, e quiçá estes ignorarão sempre que existiu Locke. Na outra parte, se encontram poucos homens que param a ler, e entre os que lêem há vinte que só lêem novelas para cada um que estuda filosofia. É muito exíguo o número dos que pensam; e estes não se ocupam em perturbar o mundo. Não jogariam a maçã da discórdia em sua pátria Montaigne, Descartes, Gassendi, Bayle, Espinosa, Hobbes, Pascal, Montesquieu, nem nenhum dos homens que tem honrado a filosofia e a literatura. A maior parte dos que perturbaram seu país foram teólogos, que ambicionaram ser chefes de seita ou ser de partido. Todos os livros de filosofia moderna juntos não produziram no mundo tanto ruído como produziu em outro tempo a disputa que tiveram os franciscanos sobre a forma que devia dar-se a suas mangas e a seus capuchões».
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IX
Da antigüidade do dogma da imortalidade da alma
O dogma da imortalidade da alma é a idéia mais consoladora e ao mesmo tempo
mais repressora que o espírito humano pode conceber. Esta agradável filosofia foi
tão antiga no Egito como suas pirâmides; e antes dos egípcios, a conheceram os
persas. Zoroastro, que cita o Sadder, quando Deus ensina a Zoroastro o local
destinado para receber o castigo, local que se chamava Dardarot no Egito, Hades
e Tártaro em Grécia, e nós temos traduzido imperfeitamente em nossas línguas
modernas pela palavra inferno. Deus ensina a Zoroastro no local destinado aos
castigos, a todos os maus reis, a um dos quais faltava um pé, e Zoroastro
perguntou por que razão. Deus respondeu que esse rei só havia feito uma boa
ação em toda sua vida, e esta ação consistia em haver aproximado com o pé uma
gamela que não estava bastante próxima a um pobre burrico que morria de fome.
Deus levou ao céu o pé do rei malvado, e deixou no inferno o resto de seu corpo. Dita fábula, que nunca se repetirá bastante, demonstra como era na remota antigüidade a opinião sobre a segunda vida. Os índios também teriam esta opinião, e sua metempsicoses o prova. Os chineses reverenciavam as almas de seus antepassados; e esses povos fundaram poderosos impérios muito tempo antes que os egípcios.
Ainda que seja antigo o império de Egito, não é tanto como os impérios do Ásia; e naquele e nestes, a alma subsistia depois da morte do corpo. Verdade é que todos esses povos, sem exceção, supunham que a alma teria forma etérea, sutil, e era imagem do corpo. A palavra sopro a inventaram muito depois os gregos. Porém não se pode negar que acreditaram que era imortal uma parte de nós mesmos. Os castigos e as recompensas na outra vida, formaram os cimentos da antiga teologia.
Ferecides foi o primeiro grego que acreditou que as almas viviam uma eternidade, porém não foi o primeiro que disse que as almas sobreviviam aos corpos. Ulisses, que viveu muito tempo antes que Ferecides, havia visto as almas dos heróis nos Infernos; porém que as almas fossem tão antigas como o mundo, foi uma opinião que nasceu no Oriente e que Ferecides difundiu no Ocidente. Não creio que exista um só sistema moderno que não se encontre nos povos antigos. Os edifícios atuais temos construído com os escombros da antigüidade.
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Chamamos alma ao que anima; porém não podemos saber mais dela, porque nossa inteligência tem limites. As três quartas partes do gênero humano não se ocupam disto; e a quarta busca, inquire, porém não encontrou nem encontrará. O homem vê uma planta que vegeta, e disse que tem alma vegetativa; observa que os corpos têm e dão movimento, e a isto chama força: vê que seu cão de caça aprende o ofício, e supõe que tem alma sensitiva, instinto; tem idéias combinadas, e a esta combinação chama espírito. Porém que entendes tu por essas palavras? Indubitavelmente a flor vegeta; porém existe realmente um ser que se chame vegetação? Um corpo rechaça a outro, porém possui dentro de si um ser distinto que se chama força? O cão te traz uma perdiz, porém vive nele um ser que se chama instinto? Todos os animais vivem; logo encerram dentro de si um ser, uma forma substancial que é a vida? Se um tulipa puder falar e te disser: a vegetação e eu somos seres que formamos um conjunto, não te enganaria a tulipa?
Vamos ver o que sabes e do que estás seguro: sabes que andas com os pés, que
digeres com o estômago, que sentes em todo o corpo, e que pensas com a cabeça. Vejamos se o único auxilio da razão pode proporcionar bastantes dados para deduzir, sem um apoio sobrenatural, que tens alma. Os primeiros filósofos, tanto caldeus como egípcios, disseram: é indispensável que haja dentro de nós algo que produza pensamentos; esse algo deve ser muito sutil, deve ser um sopro, deve ser um éter, uma quintessência, uma entelequia, um nome, uma harmonia. Segundo o divino Platão, é um composto do mesmo e do outro. «Constituem-no os átomos que pensam em nós», disse Epicuro depois de Demócrito. Porém como um átomo pode pensar? Confessa que não sabes. A opinião mais aceitável é sem dúvida a de que a alma é um ser imaterial, porém indubitavelmente concebem os sábios o que é um ser imaterial? – Não, contestam estes, porém sabemos que por natureza pensa. – E por onde o sabeis? –
Sabemos, porque pensa.– Parece que sois tão ignorantes como Epicuro. É natural que uma pedra caia, porque cai; porém eu pergunto, quem a faz cair? –Sabemos que a pedra não tem alma; sabemos que uma negação e uma afirmação não são divisíveis, porque não são partes da matéria. –Sou de sua opinião; porém a matéria possui qualidades que não são materiais, nem divisíveis, como a gravitação: a gravitação não tem partes, não é, pois, divisível. A força motriz dos corpos tampouco é um ser composto de partes. A vegetação dos corpos orgânicos, sua vida, seu instinto, não constituem seres a parte, seres divisíveis; não podeis dividir em dois a vegetação de uma roupa, a vida de um cavalo, o instinto de um cão, ou mesmo que não podes dividir em duas uma sensação, uma negação ou uma afirmação. O argumento que sacais da indivisibilidade do pensamento não prova nada.
Que idéia tens da alma? Sem revelação, só podes saber que existe em seu interior um poder desconhecido que o faz sentir e pensar. Porém esse poder de sentir e de pensar, é o mesmo poder que o faz digerir e andar? Tens que confessar que não, porque ainda que o entendimento diga ao estômago: digere, o estômago não digerirá se está enfermo e se o ser imaterial manda aos pés que andem, estos não andarão se tem gota. Os gregos compreenderam que o pensamento não tem relação muitas vezes com o jogo dos órgãos, e dotaram os órgãos da alma animal, e os pensamentos de um alma mais fina. Porém a alma do pensamento, em muitas ocasiões, depende da alma animal. A alma pensante ordena às manos que tomem, e tomam, porém não disse ao coração que bata, nem ao sangue que corra, nem ao quilo que se forme, e todos esses atos se realizam sem sua intervenção. Vê-se aqui almas que são muito pouco donas de sua casa. Disto deve deduzir-se que a alma animal não existe, o que consiste no movimento dos órgãos; e ao mesmo tempo há que concordar que ao homem não lhe abastece sua débil razão nenhuma prova de que a outra alma exista.
Vejamos agora os vãos sistemas filosóficos que se tem estabelecido respeito ao
alma. Um deles sustenta que a alma do homem é parte da substância do mesmo
Deus. Outro que é parte do Grande Todo. Há sistema que assegura que a alma está criada para toda a eternidade. Há outro que assegura que a alma foi feita e não criada. Vãos filósofos asseguram que Deus forma as almas à medida que as necessita, e que chegam no instante da copulação: outros afirmam que se alojam no corpo com os ânimos seminais. Filósofo houve que disse que se equivocavam todos os que o haviam precedido, assegurando que a alma espera seis semanas para que esteja formado o feto, e então toma possessão da glândula pineal; porém que se encontra algum gérmen falso, sai do corpo e espera melhor ocasião. A última opinião consiste em dar ao alma por morada o corpo caloso; este é o local que determina Peyronie.
São Tomas em sua questão 75 e seguintes, diz: «que a alma é uma forma que subsiste per se, que está toda em tudo, que sua essência difere de seu poder, que existem três almas vegetativas: a nutritiva, a aumentativa e a generativa; que a memória das coisas espirituais é espiritual, e a memória das corporais corporal; que a alma razoável é uma forma imaterial quanto às operações, e material quanto ao ser» Entendeste algo? Pois São Tomas escreveu duas mil páginas tão claras como esta. Por isto, sem dúvida, o chamam o anjo da escola. Não se tem inventado menos sistemas para o corpo, para explicar como ouvirá sem ter ouvidos, como olhará sem ter nariz e como tocará sem ter mãos; em que corpo se alojará em seguida, de que modo o eu, a identidade da mesma pessoa há de subsistir, como a alma do homem que se tornou imbecil à idade de quinze anos, e morreu imbecil aos setenta, voltará a unir o fio das idéias que teve na idade da puberdade e por que meio um alma, a cujo corpo se cortou uma perna em Europa e perdeu um braço em América, poderá encontrar a perna e o braço, que quiçá se tenham transformado em legumes, ou tenham passado a formar parte integrante da sangue de qualquer outro animal. Não terminaria nunca de detalhar todas as extravagancias que sobre a alma humana se tem publicado.
É singular que as leis do povo predileto de Deus não digam uma só palavra acerca da espiritualidade e da imortalidade da alma, nem fale tampouco disto o Decálogo, nem o Levítico, nem o Deuteronômio. Também é indubitável que em nenhuma parte Moisés proponha aos judeus recompensas e penas em outra vida. Não lhes fala nunca da imortalidade de suas almas, nem lhes disse que esperem ir ao céu, nem lhes ameaça com o inferno. Na lei de Moisés tudo é temporal. No Deuteronomio fala aos judeus deste modo:
«Se depois de haver tido filhos e netos prevaricais, sereis exterminados em sua pátria e ficareis reduzidos a escasso número, que viverá espalhados pelas demais nações.
»Eu sou um Deus zeloso que castigo a iniquidade dos pais até a terceira e até a quarta geração.
»Honra a pai e mãe, com o fim de viver muitos anos.
»Sempre terás o que comer, a comida não os faltará nunca.
»Se obedeceres a deuses estrangeiros, serás destruído.
»Se obedeceres ao verdadeiro Deus, terás chuvas na primavera e no outono trigo, azeite, vinho, feno para os animais, e poderás comer e saciar-te. »Imprimi estas palavras em seus corações, põe ante seus olhos, escreve-as sobre suas portas com a idéia de que seus dias se multipliquem. »Faz o que mando, sem tirar nem acrescentar nada.
»Se aparece um profeta que profetize sucessos prodigiosos, se sua predicação es verdadeira, se o que prevê sucede, se diz: vamos, segui comigo aos Deuses estrangeiros... mata-o em seguida, que se levante todo o povo contra ele para feri-lo.
»Quando o Senhor os entregue as nações, degola sem perdoar a um só homem, não tenhais piedade de ninguém.
»No comais animais impuros, como o são o águia, o grifo e o ixião. »No comais tampouco animais ruminantes e que tenham as unhas fendidas, como o camelo, a lebre, o porco espinho.
»Se observais estos mandatos, sereis abençoados na cidade e nos campos, e serão benditos os frutos de seu ventre, de sua terra e de suas bestas.
»Se não obedeceis todos estes mandamentos nem observais todas as cerimônias,
sereis malditos na cidade e nos campos; sofrerás a pobreza e fome, morrerás de
frio, de febre e de miséria; tereis sarna, fístulas, ... os assaltarão úlceras nos
joelhos e nos músculos.
»O estrangeiro os prestará com usura, porém vocês não lhe prestareis desse
modo, porque vocês quereis servir ao Senhor.., etc., etc. É evidente que em todas estas promessas e ameaças não se trata mais que do temporal, e não se encontra uma só palavra que verse sobre a imortalidade da alma nem sobre a vida futura. Alguns comentaristas ilustres acreditam que Moisés estava inteirado desses dois grandes dogmas, e provam sua opinião apoiando-se não que disse Jacó, o qual acreditando que haviam devorado a seu filho bestas ferozes, exclamou: «Descerei com meu filho ao inferno;» isto é, morrei, já que meu filho está morto. Provam também sua crença citando passagens de Isaías e de Ezequiel; Porém os hebreus a quem falou Moisés, não poderiam ter lido a Isaías nem a Ezequiel, que escreveram muitos séculos depois. É inútil questionar sobre o que secretamente opinava Moisés, já que está comprovado que em suas leis não falou nunca da vida futura, e que limita os castigos e as recompensas ao tempo presente. Se conheceu a vida futura, por que não proclamou este dogma? tal pergunta contestam vários comentaristas, dizendo que o Senhor de Moisés e de todos os homens, reservou-se o direito de explicar em tempo oportuno aos judeus uma doutrina que não estavam em estado de compreender quando viviam no deserto. Se Moisés tivesse anunciado a imortalidade da alma, ter-lhe-ia combatido uma importante escola dos judeus, a dos saduceus, autorizada pelo Estado, que lhes permitia desempenhar os primeiros cargos da nação e nomear grandes pontífices a seus sectários.
Até depois da fundação de Alexandria não se dividiram os judeus em três seitas: a
dos fariseus, dos saduceus e dos essênios. O historiador Flávio Josefo, que era
fariseu, nos refere no livro XIII de suas Antigüidades, que os fariseus acreditavam
na metempsicose; os saduceus acreditavam que a alma perecia com o corpo, e os essênios, que a alma era imortal. Segundo esses, as almas, em forma aérea, descendiam da mais alta região dos ares, para introduzir-se nos corpos, pela violenta atração que exerciam sobre elas; e quando morriam os corpos, as almas que haviam pertencido aos bons, iam a morar mais além, lá do Oceano, em um país onde não se sentia calor nem frio, nem havia vento nem chovia. As almas dos maus iam a morar em um clima perverso. Esta era a teologia dos judeus. O que devia ensinar a todos os homens, condenou a estas três seitas. Sem seu auxilio não tivéssemos chegado nunca a compreender nossa alma, porque os filósofos não tiveram jamais uma idéia determinada dela, e Moisés, único legislador do mundo antigo, que falou com Deus frente a frente, deixou a humanidade imersa na mais profunda ignorância respeito deste ponto. Só depois de mil e setecentos anos teremos a certeza da existência e da imortalidade da alma. Cícero abrigava suas dúvidas. Seu neto e sua neta souberam a verdade pelos primeiros galileus que foram a Roma. Porém antes dessa época, e depois dela, em todo o resto do mundo, donde apóstolos não penetraram, cada qual devia perguntar a sua alma, que és? de donde vens? que fazes? onde vais? És um não sei que, que pensas e sentes, porém ainda que sintas e penses mais de cem milhões de anos, não conseguirás saber mais sem o auxilio de Deus, que te concedeu o entendimento para que te sirva de guia, porém não para penetrar na essência. Assim pensou Locke, e antes que Locke, Gassendi, e antes que Gassendi, muitos sábios; porém hoje os bacharéis sabem o que esses grandes homens ignoravam. Inimigos encarniçados da razão, se tem atrevido a opor a essas verdades reconhecidas pelos sábios, levando sua má-fé e sua imprudência até o extremo de imputar ao autor desta obra a opinião de que cada alma é matéria. Perseguidores da inocência, bem sabeis que temos dito o contrario; e que dirigindo-nos a Epicuro, a Demócrito e a Lucrécio, perguntamos: «Como podeis crer que um átomo pense? confesso-te que não sabeis nada». Logo são uns caluniadores os que me perseguem.
Ninguém sabe o que é o ser que chamamos espírito, ao que vocês mesmos dão um nome material, fazendo-lhe sinônimo de ar. Os primeiros pais da Igreja acreditavam que a alma era corporal. É impossível que nós, que somos seres limitados, saibamos se nossa inteligência é substância ou faculdade; não podemos conhecer a fundo nem o ser extenso nem o ser pensante, ou seja, o mecanismo do pensamento. Apoiados na opinião de Gassendi e de Locke, afirmamos que por nós mesmos não podemos conhecer os segredos do Criador. Sois Deuses que sabeis tudo? Repetimos que só podemos conhecer pela revelação da natureza e o destino da alma; e esta revelação não os basta. Devem ser inimigos da revelação, porque perseguem aos que a crêem e aos que dela o esperam tudo. Referimo-nos à palavra de Deus; e vocês, que fingindo religiosidade, são inimigos de Deus e da razão, que blasfemam uns de outros, tratem a humilde submissão do filósofo, como o lobo trata ao cordeiro nas fábulas de Esopo, e lhe dizem:
«Murmuras-te de mim o ano passado; devo beber teu sangue». Porém a filosofia
não se vinga, se ri desses vãos esforços e ensina tranqüilamente aos homens que
quereis embrutecer, para que sejam iguais a vós.
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Poetray
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07:53
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